Depois da China, Onde?

A nova organização das cadeias de suprimentos fora da China pós pandemia reformulará o mapa da manufatura global e criará oportunidades de investimento - e riscos.

Vikram Barhat 14/04/2020 21:24:00

A guerra comercial EUA-China e a pandemia de COVID-19 estão forçando as empresas globais a diversificar sua produção, migrando da China para outros mercados emergentes. Essa mudança tornou-se particularmente urgente desde que o surto de COVID-19 causou estragos nas cadeias de suprimentos baseadas na China, expondo a dependência excessiva do mundo em relação ao país. O choque na oferta atingiu fortemente as receitas das empresas devido à perda de produção, provocando temores de recessão.

Existem outros fatores - crescente custo do trabalho, roubo de tecnologia e as políticas protecionistas do governo chinês, para citar alguns - que estão obrigando as empresas estrangeiras a afastar suas produções da segunda maior economia do mundo.

Esses fatores se uniram para levar empresas como Apple e Amazon a aprofundar suas bases de fabricação na Índia. A Apple está aumentando a produção do iPhone, incluindo o principal produto, o iPhone X.

Os países asiáticos vizinhos também estão se movendo rapidamente para capitalizar esta tendência. Alguns conseguiram atrair o Google e a Microsoft da China. Seus governos responderam cortando a burocracia, estabelecendo zonas econômicas especiais e tornando seus mercados mais atraentes com menos regulamentações para empresas estrangeiras.

 

A Pandemia Acelerará o Êxodo?

A resposta depende de para quem você pergunta. Alguns observadores dizem que, embora a pandemia tenha destacado a dependência excessiva do mundo em relação à China, o evento terá um impacto limitado na mudança. O vírus é global, mesmo se originário da China, e não é um fator tão relevante assim, diz Adam Kutas, gestor de portfólio da Fidelity Investments.

"Os maiores fatores foram os custos operacionais chineses e a melhor infraestrutura em países como Vietnã, Camboja e Bangladesh", diz ele, apontando a reestruturação industrial da própria China, na qual o país está cada vez mais focado na estruturação de salários mais altos e trabalhadores mais qualificados, enquanto se afasta da fabricação leve e pouco qualificada.

Alfred Lee, gestor de portfólio e estrategista de investimentos da BMO Global Asset Management, diz que a pandemia certamente agilizará a produção para sair da China. "Uma lição que muitos países aprenderam nas últimas semanas é que você não deseja depender excessivamente de outros países, pois isso pode causar algumas interrupções na cadeia de suprimentos", diz ele.

 

Novo Mapa de Produção, Novas Oportunidades

Investidores oportunistas devem prestar atenção aos novos elos da cadeia de suprimentos global. A perda da China é um ganho para algumas economias menores. À medida que as empresas tirem a produção da China, os principais mercados fronteiriços, incluindo “Vietnã, Camboja, Mianmar, Filipinas e Bangladesh, devem se beneficiar desse acontecimento”, diz Kutas.

À medida que as fábricas mudam para esses mercados, elas criam empregos mais bem pagos para os consumidores locais, que provavelmente dependem da agricultura. “Os produtos básicos e os varejistas devem se sair bem, já que as pessoas passam de compras nos mercados úmidos para lojas formais e compram esse leite embalado em vez de leite em pó”, observa Kutas.

O novo mapa da manufatura global configura um argumento renovado para os mercados emergentes. "As ações dos mercados emergentes estão entre as mais arriscadas do mundo, mas também têm maior potencial de estarem mal avaliadas", diz Daniel Sotiroff, analista da Morningstar, em nota. A desconexão entre valor intrínseco e preço de mercado cria oportunidades para os gestores ativos oferecerem melhor desempenho do que um fundo de índice, acrescenta Sotiroff.

Os investidores também podem aproveitar essa mudança por meio de fundos mútuos que possuem ações de “muitas dessas empresas [que] têm contratos de produção com grandes marcas como Nike, Adidas e Lululemon, mas mudaram suas fábricas para o Vietnã, Camboja, Indonésia e Índia,” observa Kutas.

Os investidores também devem ficar de olho em setores como robótica, aviões e semicondutores, onde os chineses estão começando a competir agressivamente. "Uma vez estabelecidos, seus custos mais baixos e seu relacionamento com a maior parte do mundo emergente podem tornar muito difícil para as empresas americanas, canadenses e europeias", adverte Kutas, acrescentando que "vimos essa tendência nos últimos 20 anos em áreas como guindastes, carros, painéis solares, telefones etc."

 

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O FDI (Investimentos Diretos Estrangeiros, em tradução livre) global é uma medida útil, pois captura os gastos do governo e capital privado. "Os dados indicam que o capital continua fluindo para três vencedores principais: Vietnã, Camboja e Bangladesh e, em menor grau, Filipinas, Mianmar e Indonésia", diz Kutas.

Índia, Paquistão e Etiópia também fazem parte da conversa, mas são as rotas de comércio que são a chave. "O Vietnã é o melhor posicionado simplesmente porque está nas mesmas rotas da China para os EUA", diz ele, referindo-se a ele como "um empurrão estrutural de longo prazo".

 

Não Existem Recompensas Sem Riscos

Estratégias de mercados emergentes que tentam tirar proveito de preços imprecisos ou novas oportunidades nesses mercados terão sua parcela de riscos inerentes.

"China, Rússia e Índia impõem restrições de propriedade estrangeira a algumas ou a todas as empresas de capital aberto", diz Sotiroff, da Morningstar, acrescentando que "alguns segmentos desses mercados podem estar disponíveis apenas para um grupo seleto de investidores estrangeiros".

Além das restrições, os mercados emergentes possuem alguns riscos exclusivos para as ações dessas regiões. “Várias empresas listadas em países como China, Rússia e Índia pertencem parcialmente ao governo, que nem sempre atua no melhor interesse dos acionistas”, alerta Sotiroff.

Além disso, à medida que a produção se desloca para novos mercados, as empresas estarão mais expostas ao fluxo e refluxo das economias locais. "Isso significaria que as receitas durante o ciclo econômico podem ser mais voláteis", afirma Lee.

 

Uma Vantagem Para o Canadá

Embora nenhum país esteja imune a uma guerra comercial, o Canadá pode se beneficiar como um grande exportador para os EUA. "As tarifas impostas à China podem tornar as exportações canadenses mais atraentes, permitindo que o Canadá obtenha mais participação de mercado", diz Lee.

Ele alerta, porém, que a diminuição da dependência da China pode intensificar estratégias isolacionistas. “Como os países potencialmente se afastam da globalização para se tornarem menos dependentes de outros, isso também apoiará a tendência recente de se concentrar em países específicos”, argumenta Lee.

Há outra consequência não intencional a considerar. Diversificar as bases de produção pode significar maiores estoques e aumento da pressão nas margens das empresas globais. "Uma lição importante do COVID-19 e das guerras comerciais para qualquer CEO é que eles não podem mais contar com inventários super enxutos, [o que introduz] muito risco de fechamento de fronteiras", diz Kutas.

 

Artigo publicado em https://www.morningstar.ca/ca/news/201411/after-china-where-next.aspx

About Author

Vikram Barhat

Vikram Barhat  é um escritor financeiro de Toronto especializado em investimentos, mercados de ações, finanças pessoais e outras áreas do setor de serviços financeiros. Ele também escreve para CNBC, BBC, The Globe and Mail e Toronto Star.

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