Investimento Sustentável Atinge a Maioridade - Uma Linha do Tempo

Como a convicção religiosa e a mudança da opinião pública levaram ao aumento do investimento em valores e o que as empresas fizeram para acompanhar.

Morningstar 03/03/2020 17:26:00

O investimento sustentável tem muitos nomes, mas não é uma moda passageira ou uma nova tendência - remonta décadas atrás e ascendeu rapidamente nos últimos 10 anos. O que começou como uma corrida de certos investidores de se afastar das ações do “pecado” em nome de crenças religiosas evoluiu para um lugar onde, hoje, de maneira mais ampla, as empresas estão vendo os riscos de não cuidarem de questões ambientais, sociais e de governança.

Agora, as empresas enfrentam riscos sem precedentes relacionados à crise climática e seu impacto ambiental, o seu uso de água e de outros recursos naturais, como tratam os trabalhadores em toda a cadeia produtiva e a segurança e utilidade de seus produtos. Cada vez mais investidores estão ansiosos para avaliar e medir o progresso das empresas na abordagem desses riscos.

Graças à Internet, estas informações estão amplamente disponíveis para especialistas e não especialistas. Um perfil diversificado de investidores, de todas as faixas etárias, está prestando atenção, ao contrário da noção de que o investimento em ESG é estritamente uma tendência dentre os millenials. Com o clima em mudança e a violência armada capturando a atenção do público, investir de forma sustentável pode ser um ato pessoal, de colocar dinheiro por trás dos valores e um ato de preservação corporativa, para proteger o futuro de uma empresa.

E como chegamos aqui? Veja como esta abordagem cresceu desde o início.

O que agora chamamos de Investimento Sustentável começou com grupos religiosos, como muçulmanos, quakers e metodistas, que estabeleceram parâmetros éticos em seus portfólios de investimento. Os muçulmanos usaram esse método para desenvolver investimentos em conformidade com a lei islâmica, ou Shariah, que inclui várias proibições, como armas. Os metodistas e os quakers foram responsáveis pelo lançamento dos primeiros Unit Trusts (tipo de fundo mútuo) éticos nos Estados Unidos e no Reino Unido; eles construíram veículos de investimento usando triagem negativa/excludente, evitando negócios com álcool, tabaco e jogos de azar.

Códigos éticos e crenças religiosas moldaram os primeiros casos de investimento sustentável; o desejo de investir consistentemente levando em conta valores pessoais orientou o que o investimento sustentável acabaria se tornando hoje.

 

Os Inovadores do Investimento Socialmente Responsável

1970s

O ativismo aumenta com o envolvimento do EUA na Guerra do Vietnã, particularmente sobre o uso de armas químicas. Os acionistas organizam cartas e resoluções contra a produção de napalm e do agente laranja. O movimento antiguerra impulsiona ainda mais práticas de investimento sustentável, conhecido como investimento socialmente responsável e ainda construído sobre princípios de exclusão de empresas. O sentimento do público leva ao estabelecimento dos primeiros fundos mútuos sustentáveis. Vozes fortes se manifestam e começam a influenciar o discurso global para práticas corporativas responsáveis.

1971 - Pax World lança o primeiro fundo mútuo sustentável (PAXWX). É um fundo investível até hoje. Dois ministros Metodistas - Luther Tyson e Jack Corbett - procurando evitar investir dólares da igreja para empresas que contribuíam para a Guerra do Vietnã, fundaram o inovador fundo Pax World. Eles queriam alinhar seus investimentos com seus valores e instar as empresas a aderirem a um padrão de responsabilidade social e ambiental.

1972 - O jornalista Milton Moskowitz constrói uma lista de “ações socialmente responsáveis”, publicada na Business & Society, para acompanhar o desempenho em relação a amplos índices de mercado, incluindo os primeiros fundos sustentáveis. (Townsend 2017)

1977 - O Reverendo Leon Sullivan, clérigo e líder de direitos civis, desenvolve um código de conduta para as empresas, apelidado de Princípios de Sullivan. Estes princípios visavam promover a responsabilidade social corporativa e exercer pressão econômica na África do Sul, em resposta ao sistema de segregação racial do apartheid. Um quarto de século depois, as Nações Unidas adotaram uma versão atualizada do código de conduta corporativa de Sullivan para empresas, como parte do Pacto Global das Nações Unidas.

"Photograph of Leon Sullivan"

 

Legislando Sobre Responsabilidade Corporativa

1980s

O movimento anti-apartheid, que defende o desinvestimento da África do Sul, ganha massa crítica. O ativismo dos acionistas pressiona as corporações e a pressão chega ao governo dos EUA, traduzindo-se em políticas públicas. As preocupações ambientais continuam a impulsionar o crescimento para investimentos sustentáveis. O estabelecimento de fóruns e proclamações importantes nos anos 80 ajudam a formalizar o processo, mas o derramamento de óleo do Exxon Valdez, no Alasca, coloca os EUA numa encruzilhada com as empresas de combustíveis fósseis.

1984 – É fundado o Fórum de Investimentos Sustentáveis, nos EUA.

1986 - O Congresso americano aprova a Comprehensive Anti-Apartheid Act (Lei Abrangente Anti-Apartheid), proibindo novos investimentos na África do Sul.

1986 - De acordo com a Calvert Investments, ela torna-se a primeira empresa de investimentos a patrocinar uma resolução de acionistas ligada a uma questão social.

1988 - Em resposta às crescentes preocupações com a queima de combustíveis fósseis e o aumento das temperaturas globais, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas é estabelecido em conjunto com a Organização Meteorológica Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

1989 - Diante do derramamento de óleo do Exxon Valdez, em Prudhoe Bay, no Alasca, esforços de ativistas levam à fundação da Coalition of Environmentally Responsible Economies (Coalizão de Economias Ambientalmente Responsáveis), ou Ceres. Reúne investidores, líderes empresariais e grupos de interesse público para acelerar a adoção de práticas comerciais sustentáveis e a transição para uma economia de baixo carbono.

"Aerial photograph of Exxon Valdez oil spill"

 

Um Apelo à Ação Global

1990s

A conscientização de um planeta em aquecimento continua a crescer globalmente com a assinatura do Protocolo de Quioto, um acordo entre nações para redução de emissões de carbono. As opções de investimentos sustentáveis estão crescendo modestamente; a seleção de fundos é limitada. Eles empregam uma mistura de práticas de triagem negativa e triagem positiva, também conhecidas como as best in class (melhores da classe), que decorre de noções crescentes de responsabilidade corporativa, levando em consideração as práticas de governança de uma empresa em relação a seus pares de setor.

1990 - É lançado o Índice Social Domini 400. Agora chamado MSCI KLD 400 Social Index, o Domini Index é o primeiro índice ponderado por capitalização criado para rastrear investimentos sustentáveis.

1992 - As Nações Unidas organizam a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, uma cúpula global para discutir a interseção entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental.

"President George Bush Sr. speaks at the UN Conference on Environment and Development"

1994 - 26 fundos sustentáveis estão disponíveis para investidores, com ativos em torno de US$ 1,9 bilhão.

1997 - O Protocolo de Quioto reúne líderes mundiais para estabelecer metas para enfrentar o aquecimento global.

"Photograph of representatives applauding as the Kyoto Protocol is adopted"

 

A Educação Sobre ESG

2000s

O investimento sustentável continua a crescer globalmente, impulsionado por organizações internacionais como as Nações Unidas. Kofi Annan, então secretário-geral da ONU, lança o Global Compact Initiative, baseado nos Princípios de Sullivan, para incentivar a integração da governança ambiental, social e corporativa nos mercados de capitais. A iniciativa cunha o termo Investimento ESG. Mais tarde, a intenção do investimento sustentável mudaria novamente - desta vez em direção a investimentos focados que visem ganhar influência ou ter impacto em questões que sejam do interesse dos investidores.

2000 – Kofi Annan lança a iniciativa Global Compact - um esforço voluntário de cidadania corporativa baseado em um conjunto de princípios de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e anticorrupção.

"Photograph of Kofi Annan"

2000 - A Global Reporting Initiative lança e fornece às empresas padrões internacionais e independentes, sobre como comunicar seu impacto em questões como mudança climática, direitos humanos e corrupção.

2004 - O Global Compact produz o marco “Quem Se Importa Ganha”, fornecendo recomendações sobre como incorporar questões ESG em análises, gerenciamento de ativos e corretagem de valores mobiliários. Hoje, mais de 12.000 empresas são signatárias do Global Compact.

2006 - Lançamento dos Princípios das Nações Unidas para o Investimento Responsável, um esforço focado em incentivar o desenvolvimento de investimentos sustentáveis. Atualmente, o PRI conquistou mais de 2.900 signatários, de gestores de ativos a investidores institucionais.

"Photograph of PRI opening at the NYSE with U.N. Secretary General Kofi Annan"

2006 - 60 fundos sustentáveis estão disponíveis para os investidores.

2009 - É lançada a Global Impact Investing Network. Nascida de uma reunião da Fundação Rockefeller, a rede estimula a ideia de investimento de impacto. Isto adiciona um elemento de influência ao investimento, além de valores pessoais como propósito. Estes investimentos focados visam criar um impacto na sociedade, que não aconteceria de outra forma.

 

Colocando ESG em Ação

2010s

À medida que questões como mudança climática, práticas trabalhistas e degradação ambiental são colocadas sob o holofote, os consumidores estão tomando decisões de compra considerando estas questões de sustentabilidade. Tudo isto acrescenta grandes expectativas de que as empresas listadas sejam cuidadosas com o meio ambiente, atendam ao bem-estar de todos os seus stakeholders e se governem de maneira ética e transparente.

Os investimentos em ESG proliferam. Mas, como uma prática ainda em desenvolvimento, muitos métodos são rotulados como "sustentáveis" e as tentativas de criar uma regulação e definir padrões continuam.

2011 - O Sustainability Accounting Standards Board se forma com a missão de estabelecer padrões específicos do setor para relatórios corporativos sobre questões ESG, com o objetivo de ajudar as empresas a entender como reportar estas métricas.

2011 - Os governos dos estados da Califórnia, Washington e Nova York exigem divulgações sobre risco climático pelas seguradoras que operam lá.

2015 - O Acordo de Paris é escrito e formado durante a United Nations Framework Convention on Climate Change, quando os líderes mundiais chegam a um consenso no combate às mudanças climáticas e na adaptação aos seus impactos.

2015 - O Departamento do Trabalho dos EUA determina que as pensões e os patrocinadores destes planos possam investir em investimentos socialmente responsáveis, desde que o investimento seja adequado ao plano e economicamente e financeiramente equivalente em relação aos objetivos, retornos, riscos e outros atributos financeiros do plano, como opções de investimento concorrentes.

2016 - O CalPERS, o maior fundo público de pensão dos EUA, adota um plano de cinco anos para incorporar os princípios ESG em seu processo de investimento.

2016 - O Acordo de Paris entra em vigor oficialmente quando 55 países, representando pelo menos 55% das emissões globais, se juntam formalmente. Atualmente, mais de 187 países ratificaram o Acordo de Paris.

"John Kerry signing the Paris Agreement"

2018 - O fundador e CEO da BlackRock, Larry Fink, publica sua carta anual aos CEOs pedindo às empresas que posicionem a lucratividade de longo prazo de seus negócios, mantendo o foco no papel das corporações na sociedade. As empresas focadas em minimizar os impactos ambientais e sociais negativos e acentuar os positivos serão recompensadas por clientes cada vez mais conscientes, protegerão suas marcas e atrairão os melhores talentos, o que lhes permitirá navegar melhor na transição para uma economia cada vez mais digital e mais baixa em carbono, Fink escreve.

2018 - A Comissão Europeia apresenta o seu plano de ação financeira sustentável; inclui propostas de regulamentação de divulgações sobre investimentos sustentáveis e riscos de sustentabilidade.

2019 - Os fluxos para fundos sustentáveis atingem US$ 20 bilhões em dezembro nos EUA. Isto é mais do que o quádruplo do recorde anual anterior de fluxos líquidos de fundos sustentáveis estabelecido em 2018.

 

Bibliografia:

Townsend, B. 2017. “From SRI to ESG: The Origins of Socially Responsible and Sustainable Investing” https://www.bailard.com/wp-content/uploads/2017/06/Socially-Responsible-Investing-History-Bailard-White-Paper-FNL.pdf?pdf=SRI-Investing-History-White-Paper

 

ONDE ESTAMOS HOJE:

O investimento sustentável continua a se firmar. Leia sobre nossos dados, pesquisas e análises mais recentes sobre ESG.

https://www.morningstarbr.com/br/news/199807/risco-esg-entra-em-foco.aspx - Empresas se concentram em seus riscos ESG para gerar lucratividade no longo prazo.

https://www.morningstarbr.com/br/news/198736/as-10-hist%c3%b3rias-sobre-investimentos-sustent%c3%a1veis-de-2019.aspx – Examinamos os desenvolvimentos e consideramos suas implicações para 2020.

https://www.morningstarbr.com/br/news/197483/interesse-em-investimentos-sustent%c3%a1veis-se-traduzindo-em-investimentos-reais.aspx - Temos visto um recorde de captação de fundos ESG neste ano.

Aprenda mais sobre Investimento ESG.

 

Publicação original em https://www.morningstar.com/features/esg-investing-history

 

 

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