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A Indústria da Canabis Enfrenta Significativos Riscos de ESG

A indústria seria sábia em adotar práticas sustentáveis desde o começo.

Jon Hale 11/11/2019 13:40:00

Não é sempre que uma nova indústria surge praticamente do dia para a noite depois de ter sido considerada ilegal por décadas, mas isto é o que está acontecendo atualmente com a canabis hoje . Diferente da maioria das indústrias emergentes, para as quais a sobrevivência no longo prazo não pode ser garantida, canabis já possui uma base de consumidores estabelecida a muito tempo, tanto para uso recreativo quanto para uso médico, tornando a questão não tanto em se a canabis legal vai ser em sucedida com os consumidores mas quão rápido e quão grande a indústria vai crescer.

A crescente indústria da cannabis, no entanto, enfrenta riscos significativos de sustentabilidade que podem prejudicar o crescimento e potencialmente ameaçar sua licença social, ainda tênue, para operar. Investidores devem considerar estes riscos ao avaliar empresas listadas expostas à maconha e aquelas que se dedicam apenas a isto. As empresas de canabis devem prestar atenção aos riscos ambientais, sociais e de governança e tomar medidas para mitigá-los desde o início. Fazer isto pode resultar em benefícios operacionais e de reputação para os adotantes iniciais e melhorar a percepção pública do setor como um todo. Melhor que a maconha legal seja vista como sustentável do que apenas mais uma "ação pecaminosa".

Riscos Ambientais

Para empresas produtoras de canabis, o uso energético é um grande risco relacionado ao ESG. O cultivo indoor parece ser a melhor escolha para o cultivo da canabis: é mais eficiente e mais seguro, produz melhor uniformidade do produto e pode se localizar próximo aos mercados consumidores. Mas o cultivo indoor gera um enorme consumo de energia. Um estudo estimou que a produção de canabis consome pelo menos 1% da eletricidade do país (1). Se o setor cresce, o impacto negativo do uso intensivo de energia e as emissões de carbono resultantes também aumentam. A regulamentação que impõe um preço ao carbono afetaria fortemente os produtores de canabis indoor, assim como as regulamentações específicas do setor, que exigem medidas de eficiência energética, ou demandas das partes interessadas, para eliminar as emissões de gases de efeito estufa. O espectro da regulamentação pressiona as empresas a enfrentar este risco mais cedo, concentrando-se na eficiência e inovação do processo de cultivo. Aqueles que o fazem podem reduzir seus custos de energia de longo prazo e, ao mesmo tempo, colher os benefícios de reputação de serem vistos como produtores sustentáveis de canabis.

Espera-se que o cultivo ao ar livre se expanda com a ampla legalização e a crescente demanda por concentrados usados como matéria-prima para extratos e produtos finais com infusão de canabis. A maconha usada para concentrados pode ser cultivada em condições externas mais variáveis, porque a qualidade e a consistência são menos importantes do que a maconha destinada ao consumo como flor.

O cultivo ao ar livre consome muito menos energia, mas tem seus próprios riscos ambientais relacionados ao uso de pesticidas, água e terra. As culturas de canabis cultivadas ao ar livre são propensas a mofo, ácaros e outras pragas que requerem tratamento químico. As práticas inadequadas do setor, alerta um relatório da Sustainalytics, "podem levar à contaminação ambiental, problemas de saúde para funcionários e clientes expostos, recalls de produtos, litígios, multas, destruição de colheitas e perda de licenças para operação". (2)

O uso da água, especialmente no oeste dos Estados Unidos, é outro risco ambiental para os produtores de canabis ao ar livre. Uma única planta de canabis cultivada ao ar livre requer até seis galões de água por dia durante o pico da estação de cultivo (3). Isto dará uma vantagem aos produtores que desenvolverem maneiras mais eficientes de usar água e aumentará o potencial de restrições regulatórias no uso da água, especialmente durante períodos de estresse hídrico ou seca.

Por fim, um relatório de 2017 constatou que, por unidade de área, a produção de canabis pode levar a uma maior fragmentação florestal do que a indústria madeireira e está associada à modificação de riachos, erosão do solo e deslizamentos de terra (4). Todas essas questões, especialmente se não houverem medidas proativas tomadas dentro da indústria da canabis, poderiam convidar um escrutínio público e regulatório, resultando em custos mais altos e uma licença social mais fraca para operar.

Riscos Sociais

A indústria da canabis enfrenta uma série de riscos sociais associados a seus produtos, começando com seus efeitos na saúde. A legalização generalizada levará a mais pesquisas científicas sobre os efeitos do uso de maconha na saúde em geral e a um maior foco regulatório nos efeitos na saúde de produtos específicos. Embora atualmente considere-se que o uso de maconha seja relativamente seguro para uso recreativo por adultos e ofereça alguns benefícios medicinais, mais estudos científicos poderiam reforçar, ou minar, estas alegações.

Produtores e varejistas de produtos da canabis podem enfrentar escrutínio público e regulatório sobre as práticas de marketing, principalmente se parecer direcionado a adolescentes. De maneira mais ampla, o setor precisará ter cuidado para evitar exagerar os benefícios saudáveis de seus produtos e subestimar os possíveis prejuízos, enquanto aguardam-se estudos científicos adicionais (5). As empresas que valorizam o desenvolvimento de produtos seguros, a rotulagem clara de produtos e campanhas de marketing responsáveis podem mitigar esses riscos.

Riscos de Governança

No quesito da governança, os maiores riscos estão relacionados à ética e à transparência. A necessidade de se obter licenças do governo para operações de cultivo, fabricação de produtos e pontos de venda significa que as empresas de canabis podem estar sob escrutínio sobre suas interações com entes públicos. Empresas com altos padrões éticos e o compromisso de serem transparentes sobre suas atividades de lobby e gastos políticos estarão mais bem posicionadas para suportar este escrutínio.

Como as empresas listadas envolvidas no setor de canabis consideram a composição de seus conselhos, elas devem prestar atenção à diversidade e a expertise. Ter mulheres e pessoas de cor em quadros deve ser um dado, especialmente este último por causa do impacto desproporcional que a proibição teve sobre pessoas de cor. Ter membros do conselho com experiência na indústria da saúde, marketing e impacto ambiental pode posicionar melhor um conselho para supervisionar a variedade de riscos que a empresa enfrenta.

Apesar do momento para a legalização da canabis ser positivo, a licença social para operar permanece tênue para as empresas de canabis. Uma maneira de fortalecer a licença para operar é que as empresas de canabis se tornem “boas cidadãs”, comprometidas em lidar com os riscos ESG de maneira eficaz. Às vezes, no caos que ocorre com uma indústria em rápido crescimento e com muitos novos participantes, abordar questões de sustentabilidade é algo colocado em segundo plano, não considerado central para a construção de um negócio. Mas há um forte argumento de que as empresas que se estabelecem como líderes em sustentabilidade terão uma licença mais forte para operar do que aquelas que são retardatárias. Talvez mais importante, incorporar práticas sustentáveis desde o início é mais fácil do que recuar em resposta à pressão das partes interessadas. Uma indústria da maconha que se desenvolva no contexto da sustentabilidade funcionará melhor para todos os seus stakeholders.

Este artigo será publicado na edição de inverno da revista Morningstar.

1. Warren, G.S. 2015. “Regulating Pot to Save the Polar Bear.” Columbia Journal of Environmental Law, Vol. 40, PP. 385-432.
2. Vezer, M. & Morrow, D. 2018. “The budding cannabis industry: a first look at ESG considerations.” Sustainalytics Thematic Research, July 12, 2018.
3. Madhusoodanan, J. 2019. “Can cannabis go green?” 
Nature, Aug. 28, 2019.
4. Wang, I., Brenner, J., & Butsic, V. “Cannabis, an emerging agricultural crop, leads to deforestation and fragmentation.” 
Frontiers in Ecology and the Environment, Vol. 15 (9), PP. 495-501.
5. Ratte, A. & Swynghedauw, L. 2019. “Clearing the Smoke Around Cannabis.” MSCI Issue Brief, June 2019.

 

Artigo original em https://www.morningstar.com/articles/949410/cannabis-faces-significant-esg-risks

About Author

Jon Hale  Jon Hale is a consultant with Morningstar Institutional Investment Consulting.